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TAREFAS DE CASA - ARTES - 8ª série

TAREFAS DE CASA - ARTES - 8ª série Nossa Senhora do Rosário

Entrega: 1º aula depois do recesso - Valor: 20 pontos 
8ª Série:

Após ler o texto; “Estética do grotesco” abaixo”
-         Diferenciar as categorias estéticas:  “Grotesco” e  “Sublime” .
-         Apresentar uma imagem grotesca e justificar o porque.

 A ESTÉTICA DO GROTESCO 
Autor: Fulvio Frederico Pacheco dos Santos¹

Resumo
 
O presente artigo analisa o grotesco como forma de expressão do horror presente em várias categorias da: literatura, arte erudita e industria cultural que interligadas entre si. O enfoque principal é a análise desta estética obscura em diversas mídias da produção curitibana. 
Palavras Chave: Grotesco, Romantismo, Expressionismo, Curitiba.

 

1. Apresentação 
Iniciamos a reflexão definindo e investigando o grotesco em diferentes contextos estabelecemos a arte como fio condutor do estudo, englobando à literatura entre as categorias artísticas analisadas. Várias obras, movimentos e artistas, com pensamentos e estéticas singulares, serão explorados quanto aos seus temas bizarros e obscuros envolvendo aspectos referentes ao horror estético que proporcionam.. A análise será panorâmica, citando as variadas formas artísticas e formulando ligações estilísticas, até o ponto principal que será uma análise particular da arte e literatura identificada como grotesca produzida em Curitiba.

 

2. A Gênese do grotesco 
As artes sempre estiveram presentes na humanidade, despertando diferentes análises estéticas. O “Belo” é definido por Kant como “objeto sem objetivo”, normalmente observado sem dúvida ou busca de compreensão, tornando a mente sem interesse (ANDREW, 1976). 
HUGO MUNSTERBERG, com base nas teorias estéticas de Kant, justifica que a apreciação do belo trás um objeto justificado nele próprio. Sem esforço não interagimos, apenas experimentamos, o que torna seu oposto - o grotesco - mais interessante como experiência estética.

 “... a criação do grotesco pode surgir na visão de quem sonha, de quem devaneia, de quem exprime uma visão desencantada da existência, assimilando-a como um jogo de máscaras ou uma representação caricatural. Desta maneira, pode assumir formas fantásticas, horroríficas, satíricas ou simplesmente absurdas”.

 (SODRÉ E PAIVA, 2002)

 Segundo KAYSER (1986), a estética grotesca sempre foi evidente na arte grega, chinesa, etrusca, germânica e asteca, entre outras. Aristóteles, no seu livro Poética, precede e justifica a filosofia do horror como elemento emocional das tragédias. Ainda no mundo ocidental antigo, encontramos imagens obscuras e horrendas nas histórias de Lobisomen do Satiricon de Petrônio, nas Metamorfoses de Sócrates, e no Inferno de Dante. Mas a grande produção foi iniciada “conscientemente”, dentro da concepção do grotesco, no século XVI, durante o Renascimento Italiano, com a descoberta dos grottes romanos, ornamentos disformes que entrelaçavam formas humanas com elementos fantásticos. Hieronymus Bosch coincidentemente, neste mesmo período, também criou em suas telas seres híbridos mesclando figuras deformadas e demoníacas em cenários fantasiosos, como vemos na tela O Jardim das Delícias. Adornos grotescos também foram utilizados no Barroco e no Rococó. Posteriormente foram rejeitados pelo movimento neoclássico, mas logo depois  resgatados e supervalorizados pelos artistas do Romantismo no século XVII,I os quais igualaram o valor do feio ao do belo, transformando o grotesco em categoria estética e literária. Essa nova concepção incentivou o surgimento do gênero literário do horror, que segundo CARROLLl foi criado a partir do romance gótico O Castelo de Otranto, de Horace Walpole, em 1765. 
KAYSER refere-se aos autores românticos alemães dos séculos XIX e XX como excepcionais pela estrutura desta concepção dentro da estética obscura. Como precursor destes primeiros românticos, temos Goethe, através da sua publicação Os sofrimentos do jovem Werther, de 1774. Essa obra instigava um pensamento filosófico, pregando a superioridade do "gênio original" do artista/autor contra o intelecto. E essa teoria abria infindavelmente as possibilidades de uso do grotesco através da expressão crua dos sentimentos originados no intimo do criador, sem a influência da racionalidade, e deixava o lado negro dos artistas tomar conta sem nenhuma mediação.  
Tais manifestações no Romantismo variaram de acordo com cada expressão artística na pintura, tendendo até à abstração. Vemos essa demonstração interior voltar-se à representação grotesca em obras de Caspar David Friedrich, pintor de paisagens misteriosas, que segundo CANEPA influenciaria escritores e também alguns cineastas do expressionismo alemão, como F.W.Murnau. 
Essas expressões artísticas voltadas aos efeitos anômalos e surpreendentes foram vistas em obras de outros pintores românticos como em O Pesadelo , de Heinrich Füssli (1781) e em grande parte da produção do atormentado pintor Francisco de Goya, produtor de várias telas onde os elementos grotescos aparecem como nunca antes, descrevendo as guerras como fúteis, sem glória, sem heróis, e somente com assassinos e mortos. 
Telas como Desastres de Guerra, de 1810, e Saturno devorando seus filhos, de 1819, apresentam tamanho despojamento, que segundo CANTÓN prefigurou o expressionismo. 
Na literatura o gênero se desenvolveu com a implantação do sobrenatural, através de obras como The Monk, de Matthew Lewis (1797), e Frankenstein, de Mary Shelley (1818), as primeiras do gênero adaptadas ao teatro. Nos Estados Unidos, Edgar Allan Poe, sublimando uma série de tragédias, iniciava sua obscura produção, influenciado pela revista inglesa Blackwoods (1820 a 1840). Nas ultimas décadas do século XIX surgiram os romances clássicos deste gênero como O estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde (1887), de Robert Louis Stevenson, Drácula (1887), de Bram Stoker, e O Retrato de Dorian Gray (1891), de Oscar Wilde. 
Para o poeta BAUDELAIRE “a mistura do grotesco e do trágico é agradável ao espírito”. Representante do Romantismo ele trabalha elementos grotesco, principalmente nos seus vários poemas sobre a morte onde vemos a influência do horror do já citado Edgar Allan Poe. 
O Romantismo foi responsável pela intencionalidade do grotesco. Sua aplicação intensificou graças aos novos conceitos das vanguardas européias modernistas que renovaram a estética e, principalmente, o contexto da arte nas primeiras décadas do século XX. Movimentos como o Surrealismo, o Dadaísmo e, principalmente, o Expressionismo utilizam o grotesco em suas obras fantásticas como elemento que remetia a dor, a loucura, ao erotismo, ao inconsciente e ao extraordinário. 
Segundo CARDINAL, o Expressionismo “convida o espectador a experimentar um contato direto com o sentimento gerador da obra” (1988 p.25). A temática insólita e sombria de pintores, que muitas vezes fazia sucumbir sua saúde mental, como Alfred Kubin, Edvard Munch e do precursor Van Gogh, faz do expressionismo uma atualização dos fundamentos românticos, por meio da distorção das figuras e imagens em função dos sentimentos do autor, como vemos na tela O Grito, de 1893, de Munch, pintura que retrata a angústia e o desespero, inspirada nas decepções do artista tanto no amor quanto com seus amigos. 
O Expressionismo foi uma tendência que inconscientemente acontecia em qualquer momento, cultura ou parte do mundo. Seu dinamismo superior ao da arte acadêmica, através do uso extático da cor e da distorção emotiva da forma, já era encontrado anteriormente em esculturas tribais, xilogravuras medievais e desenhos de crianças. Essa forma pictórica, sempre ressaltando a projeção das experiências interiores do artista no espectador, segundo o denominador deste estilo, o editor e poeta H. Walden (ROBINSON, 2000), diferenciava do Impressionismo por não ser restrito à reprodução científica, e por tratar do aspecto profundo, imperceptível nas representações. O Expressionismo não se restringiu as artes plásticas. Enveredou por outras categorias artísticas, com particularidades em cada uma. Na poesia, pela espontaneidade absoluta que buscava a destruição da sintaxe tradicional, à procura do confronto individual do artista com a realidade, como vemos nos textos de Georg Heym e Franz Kafka. Na música, com composições atonais, como das composições do austríaco Arnold Schõnberg; Na dança, com o movimento espontâneo e emocional nas coreografias de Isadora Duncan. E no teatro, em peças que criavam um mundo interno na encenação de um único personagem em cena, explorando temas como a marginalidade, a descoberta da sexualidade e o conflito de gerações. Esses personagens se transformavam através da maquiagem em forma de caricatura, explorando assim a estética grotesca. 
Segundo CHAUÍ, “o livro, como o cinema, tem o poder extraordinário, próprio da obra de arte, de tornar presente o ausente, próximo o distante, distante o próximo, entrecruzando realidade e irrealidade, verdade e fantasia, reflexão e devaneio.” (2001). 
O primeiro filme já surgiu despertando medo. “A chegada do trem na estação” dos irmãos Lumiére, em 1895, mostra a chegada de uma locomotiva à estação. Essa projeção causou espanto diante do público, já que muitos fugiram achando que o trem realmente estava ali. Mas esse era apenas o inicio. 
O Expressionismo das telas de pintura enveredou como corrente cinematográfica, intitulado Expressionismo Alemão.  O que na verdade foi a salvação da cinematografia alemã, segundo CANEPA (2008) uma produção arcaica e sem graça até então, excluída do circuito de distribuição internacional de Hollywood.  
Os cineastas alemães criaram a corrente expressionista a partir do filme O Gabinete do Dr. Caligari, de 1920, dirigido por Robert Wiene, que desenvolvia uma atmosfera de pesadelo e atmosfera obscura. Contrariando a teoria kantiana que prega que a arte não segue formulas, o cinema expressionista estabelece estratégias, como cenografia, maquiagem e figurino estilizados, para intensificação do drama. Temática dramática, personagens com obsessões malévolas, a predileção por um universo imaginário, enigmático e sombrio, essas características eram observadas em todos os filmes deste período como: Nosferatu (1922), de F.W. Murnau, Metrópolis (1930), de  Fritz Lang, e O Anjo Azul (1930), de Josef Von Sternberg. No cinema, como na literatura e na pintura, o Expressionismo conservava sentimentos de loucura, morte e destruição. Na América Latina o Expressionismo foi utilizado como via de protesto político, como vemos na obra do muralista Diego Rivera. Nos Estados Unidos, o expressionismo se manifestou completamente abstrato, como vemos na obra de Jackson Pollock, na década de 1950. Na arte brasileira o Expressionismo surgiu no ápice do Modernismo, inaugurado pela semana de 22. Cândido Portinari apresentou em sua série de telas Os Retirantes, as características expressionistas, através de representações fatalistas de desigualdade, fome e sofrimento no Nordeste, representando pictoricamente a miséria, e ressaltando de forma densa e tétrica ossos e lágrimas em tons frios. O Expressionismo literário assim como o Surrealismo vieram ao Brasil pelas obras de escritores modernistas, como Mário de Andrade, que destaca sua importância pela forma caricatural deformada e simplificada através do exagero, capaz de chocar pessoas difíceis de sensibilizar.  Nelson Rodrigues foi pioneiro da corrente entre os dramaturgos no Brasil, utilizando os recursos estéticos expressionistas e surrealistas para expressar o existencialismo e o acaso. Estas características são vistas nas suas peças psicológicas: A Mulher Sem Pecado; Vestido de Noiva; Valsa nº 6; Viúva, Porém Honesta e Anti-Nelson Rodrigues. Nesta sua primeira fase de peças, Nelson cria situações e personagens excessivos, perturbados e vertiginosos em marcação cênica, auxiliados por cenografia e iluminação densos, ao invés de ambientes decorativos. Era evidente o ressentimento pela série de tragédias na vida de Nelson Rodrigues em sua obra.  Vestido de Noiva, peça fundadora do Teatro de Comédia Brasileiro, é ao mesmo tempo expressionista e surrealista em sua narrativa e estética . A montagem apresenta, em um mesmo palco, paralelamente a realidade, a memória e a alucinação sobrepostas cenicamente. Esses três planos servem de fundo para três tensas facetas psicológicas da protagonista Alaíde, que devaneia entre o delírio e a realidade - uma revolução para o teatro da época. Guimarães Rosa, assim como Mário de Andrade e Nelson Rodrigues, representa o expressionismo na literatura brasileira, por características como o desejo de vingança, o prenúncio de morte, o caráter de deformação da realidade e a manifestação do grotesco apresentada de forma detalhista, mórbida e expressionista. 
Aproximando-se dos tempos atuais temos obras que como nunca despertam o horror, presentes no cinema, na literatura, ou em manifestações que abrangem as duas categorias como as produzidas por Stephen King (1981), em filmes/livros como: Cemitério Maldito e o Iluminado. King representa o sucesso do terror no cinema, na literatura e na televisão, a partir dos anos 50, como reflexo de sua exploração mais reflexiva, apresentado de duas formas distintas também por outros autores: a explícita, mostrada em filmes como “O Exorcista” (Friedkin, 1972); e a psicológica, onde o suspense gradativamente faz os espectadores imaginarem elementos chaves da narrativa, como vemos no filme “O Bebê de Rosemary” (Polanski, 1968). Onde o grande bebê título, supostamente monstruoso, nunca é mostrado, fazendo o espectador imaginar em seu nível mais primário. 
Voltando ao Brasil temos José Mojica Marins, como representante marginal destas representações cinematográficas bizarras. Porem a filmografia de Marins mais conhecido pelo seu personagem Zé do caixão ultrapassa os limites do extravagante pelo universo ingenuamente kitsch e perversões relacionando sexualidade e morte bem ao gosto da pornochanchada brasileira que progressivamente surgia. Esse universo lisérgico aparece em filmes como À Meia-Noite Levarei Sua Alma de 1963 de aberrações, escatologia, sexo bizarro, e estupro fazem da sua filmografia um grotesco exacerbado e genuinamente brasileiro.

Segundo Barcinski (2004) “À meia-noite entrarei no seu cadáver é, na verdade, um gibi transposto para as telas. Desde as primeiras cenas, quando uma bruxa pede que os espectadores mais medrosos abandonem a sala, o filme usa artifícios de HQ. O filme tem um ritmo vertiginoso, aceleradíssimo. As cenas se sucedem aos pulos, de um cenário para outro, um susto atrás do outro, uma surpresa a cada quadro”O famoso Zé do caixão não se limitou ao cinema; Seu terror foi pioneiro também as histórias em quadrinhos de terror que até então eram produzidas no Brasil tendo personagens e ambientes estrangeiros. Os responsáveis pela versão foram os desenhistas Rubens Francisco Lucchetti e Nico Rosso que trabalhavam para revista americana a Cripta. No universo dos quadrinhos, essa abordagem grotesca é relativamente recente. A temática do grotesco foi explorada nos anos 50 quando começou com o modismo das HQ de terror, como a citada Cripta do Terror. No entanto, uma vanguarda dentro da estética grotesca surgiu quando o quadrinho foi visto com um pouco mais de seriedade na década de 60, em títulos como Zap Comi, (1967), de Robert Crumb, a primeira revista em quadrinhos underground realmente conhecida. Mas os anos 80 são o ápice do gênero graças a títulos como Sandman (1985), de Neil Gaiman, que através do personagem título personifica o universo onírico e o ato de sonhar, ou também Batman, o Cavaleiro das Trevas (1985), a famosa revisão sombria do Batman, por Frank Miller. Mas definitivamente disforme são as publicações do brasileiro Lourenço Mutarelli, povoadas pela morte, pelo monstruoso e pelo deformado.

 

3. O Grotesco em Curitiba 
Segundo KAYSER, signitivamente o grotesco teve três grandes épocas: o Romantismo, o século XIX e o Modernismo. Podemos identificar na arte moderna curitibana do início de 1940 a bizarra obra de Miguel Bakun como um dos pioneiros expressionistas. Autodidata e provincialmente ingênuo, Bakun surpreendeu pela emotividade dos quadros que refletem seu temperamento melancólico e depressivo, em imagens de matas e casas simples de Curitiba. Seu misticismo leva sua obra a uma vinculação da natureza ao sagrado, atrelando com um ar de mistério estranhas criaturas ao seus quadros, e ligando-os mais ainda ao contexto expressionista. Bakun agrava sua depressão pela falta de dinheiro e não adaptação ao abstracionismo que domina as galerias de Curitiba, apegando-se como nunca à religião. Em 1963 suicida-se em seu ateliê. 
Guido Viaro, incentivador de Miguel Bakun como pintor, assim como Poty Lazzarotto, são responsáveis pela difusão do expressionismo que domina Curitiba nos anos 50. Ambos acabaram ligados à figuração subjetiva, com o homem como figura central, apresentando temáticas cotidianas de forma agressiva e utilizando deformações gráficas em suas pinturas e gravuras. Viaro migrou das paisagens rurais paranaenses de nuances impressionistas transformando-se em expressionista, com temáticas intensas em questões sociais e religiosas. Já Poty buscou inspiração na estética expressionista da obra de Käthe Kollwitz e no cinema expressionista alemão. Suas imagens contam com texturas densas, cores sombrias e chapadas, e formas geométricas que remetem ao Cubismo. O grafismo de Poty volta-se para a produção de gravuras, dialogando muitas vezes com a estética dos Quadrinhos, linguagem que foi a primeira a ser utilizada por Poty Lazzaroto. 
Esse gesto expressionista de Poty pode ser relacionado com a obra de outro artista que foca uma estética expressionista grotesca: Raul Cruz. A violência cromática das tonalidades quentes próximas do graffiti de Raul Cruz não distancia sua obra de uma estética sombria, mas enfatiza a soberania do Dionisíaco sobre o Apolíneo, privilegiando a atração do olhar que os efeitos luminosos e cromáticos intensos proporcionam. 
Toda essa intensidade plástica de Raul Cruz foi apreciada no teatro, como na peça Educação Sentimental do Vampiro, uma montagem também classificada como expressionista e inspirada na obra de Dalton Trevisan. 
De uma maneira mais evocativa que todos os outros listados, o grotesco tem papel relevante na obra de Trevisan. Ele que junto como já citado Poty, seu ilustrador por meio século estabeleceu uma relação dialógica onde as freqüentes pistas da cidade se revelam presentes. Temos um bom exemplo disso no poema “Lamentações de Curitiba” onde o grotesco assume um horror bizarro:

 

  “  Gemerei  por Curitiba; sim, apregoarei por toda a Curitiba  a nuvem  que  vem  pelo  céu, o grito dos infantes  a  anuncia... No  dia de suas aflições os vivos serão levados pela mão dos mortos  para a morte horrível. Da cidade não ficará um garfo, aqui  uma  panela, ali uma xícara quebrada; ninguém informará onde era o túmulo de Maria Bueno.

 

O dia virá no meio do maior silêncio ­ com um guincho. O  relógio na Praça Osório marca a hora parada ...O  pânico virá num baile de travestis no Operário, no meio do riso... A estátua do Marechal de Ferro madrugará com os olhos na nuca para não ver. Os ipês na Praça Tiradentes sacolejarão os enforcados  como roupa secando no arame. De  assombro  as  damas  alegres da Dinorá  atearão  fogo  ao  vestido gritando nas janelas o fim dos tempos. No rio Belém serão tantos os afogados que a cabeça  de  um encostará  nos pés de outro, e onde a cachaça para  mil  e  um velórios?   necrófilos da cidade casarão em comunhão de bens com suas noivas desenterradas e vestidas de branco.

                        A  filha de meu povo será um pátio no Asilo Nossa Senhora da Luz com seus urros e maldições. Muitos correrão para baixo da cama e cada um terá mais de uma morte:uma, a que escolher e a outra pela espada do Senhor, que já assobia no ar. O rio Barigui se tingirá de vermelho mais que o Eufrates.
Um  sino  baterá no ouvido dos homens e eles se esborracharão feito caqui  maduro.  As  filhas vaidosas de sua cidade suspirarão. Chorarão pedras de sangue dizendo: Não existe dor como a minha dor. Depois hão de chorar os próprios olhos com dois buracos na cara.

 

 Ai de Curitiba, perece o teu povo e se quebranta meu coração, porque é o dia da  visitação,  diz o Senhor. Dos  teus lambrequins  de  ouro,   das  tuas  cem figurinhas de bala Zequinha.  Do teu bebedouro de pangarés, a gente perguntará: que fim levaram?

 

Dá uivos, ó Rua 15, berra, ó Ponte Preta, uma espiga de milho debulhada é Curitiba: sabugo estéril. O  terror arrombará  as  portas, os macaquinhos  do  Passeio Público destelharão as casas, a cidade federá como a jaula  de um chacal doente...  A espada veio sobre Curitiba, e Curitiba foi, não é mais. Não tremas, ó cidadão de São José dos Pinhais, nem tu, pacato munícipe  de  Colombo, a besta baterá vôo no degrau  de  tuas portas. Até aqui o juízo de Curitiba.” (TREVISAN, 1996)

 

Dalton é o autor local que tem como mérito o fato de ter sua obra como principal referência curitibana em peças teatrais, inclusive naquela que mais tempo ficou em cartaz em Curitiba: O Vampiro e a Polaquinha, produzida por João Luiz Fiani durante quase toda década de 1990.Curitiba dos contos de Dalton Trevisan é grotesca e degenerada, como o Rio de Janeiro de Nelson Rodrigues, com protagonistas que descartam valores morais e éticos. Nelsinho, o mais famoso personagem de Dalton Trevisan, herói da obra Vampiro de Curitiba, de 1965, é um bom exemplo e não poderia deixar de apresentar perversões. O herói, obcecado por mulheres e atormentado com a intensidade desta obsessão carnal, narra em primeira pessoa os contos deste que é seu mais conhecido livro. Dalton Trevisan, como Nelson Rodrigues, desenvolve personagens que são levados pela satisfação sexual à perversão e o crime. O tema sexo, na obra de Trevisan, é representado de forma desumana e problemática, sem ternura alguma, perfeitamente conectado ao cenário curitibano, representado como uma cidade fria e opressiva. Esse universo sensual de Trevisan passa longe pela estética idealizada das belas imagens eróticas ou não-eróticas, comuns nas modalidades artísticas da industria cultural e até na publicidade que viciou o povo com o “Belo”. Essas características fazem da obra de Dalton Trevisan uma contracultura, podendo ser classificada como antiestética, pela narrativa pejorativa, pois os heróis de seus livros são subterrâneos e causadores de tragédias. Essa degradação temática em um ambiente urbano é vista em contos como: Uma Vela para Dario, do livro Cemitério de Elefantes, onde o protagonista é assistido agonizando, morrendo, e sendo roubado por varias pessoas curiosas e sem compaixão. A personalidade marginal comum em personagens é vista também no conto Morte na Praça, de 1964, onde um casal formado por um ex-garimpeiro, jogador e assassino, e uma ex-bailarina de cabaré que enterra seus vários abortos em um beco, quebram a harmonia da cidade que se orgulhava de sua praça e vê a mesma transformada pelo enfadonho casal num ponto de prostituição, que desestrutura as famílias locais. Nestas obras é clara a representação de uma cidade fria e repressiva geradora de pecados e obsessões pelos protagonistas marginais, inseguros e perversos de um realismo grotesco, que repudia muitos leitores. A Polaquinha, de 1985, único romance do contista Dalton Trevisan, mostra a “perdição” da protagonista que intitula o livro, através dos vários homens que ao longo de sua vida a usaram, desde a sua primeira menstruação até sua prostituição. Uma espécie de antologia de sua obra seguindo a linguagem trágico-grotesca dos premiados contos de Dalton, conhecido pela aura de mistério concedida, graças ao distanciamento com a mídia que lhe rendeu o apelido de vampiro. Mas como Trevisan, o literário José Castelo, em seu livro O Fantasma, faz um ensaio bastante crítico e subjetivo sobre Curitiba, descrevendo-a como uma cidade vazia, sombria, de clima frio e de pessoas introspectivas, discretas e desconfiadas. É o caráter melancólico escondido sob o aspecto pós-moderno (CASTELO, 2001).

 

Na industria cultural de Curitiba, encontramos temas bizarros como a história do folclórico Chupacabra, na revista em quadrinhos Manticore de Gian Danton e Antonio Eder Semião de dezembro de 1998 que explorou em seus dois primeiros números a lenda do Chupa-Cabras, que surgiu no interior do estado e também assustou a população de Curitiba em 1997, associando-a a óvnis e usando como referência casos relatados. Segue uma linha de suspense e ficção científica, ao focar a lenda deste extraterrestre. Também nos Quadrinhos: Quadrinhofilia de José Aguiar: também encontramos o grotesco na opresiva releitura do Gabinete do Dr. Calligari, inspirado no filme criador do expressionismo alemão cinematográfico clássico do expressionismo alemão. Outra publicação Repleta de referências a personagens bizarros entre vampiros e fantasmas é a revista Quadrinhópole: Lobo da Estrada. Mas o quadrinho local enveredou pelo terror muito antes disso em Curitiba através da editora Grafipar que entre os variados temas que publicava desde 1977, que englobaram além do horror, os gibis policiais, ficções cientificas, westerns  e muito erotismo.

 

A Curitiba nebulosa também é constante na obra de Valêncio Xavier, através de mortes e magias citadas em narrativas conhecidas pelo vínculo íntimo entre a imagem e o texto com intervenções visuais próximas as propostas por Machado de Assis em Brás Cubas. Um notável exemplo: O Mez da Grippe de 1998, a principal obra de Xavier, que serviu de base ao filme Mystérios, dirigido por Pedro Merege e Beto Carminatti, uma película de ambientação soturna, narração em off do ator Carlos Vereza, e fotografia baseada em luz e sombra, compondo um cenário gótico e um clima de estranhamento. Em Mystérios surgem várias situações como o caso policial sobre a garota que some no interior de um trem fantasma, e a evocação de Safo, atriz pornô ancestral dos anos 20. O que aumenta a importância da obra de Valêncio são as histórias delimitadas precisamente no espaço e no tempo, baseadas em eventos históricos. Segundo o próprio Valêncio, várias das narrativas, como o conto Gângsteres Num País Tropical, do livro Crimes à Moda Antiga, foram retiradas de pesquisas na Biblioteca Pública do Paraná.

 Nestas pastas de recortes jornalísticos da biblioteca, encontra-se, além das histórias sangrentas policiais caçadas por Valêncio Xavier, um macabro arquivo de histórias assombrosas publicadas pela imprensa, Casos sangrentos como aqueles ilustrados por Cláudio Seto na Tribuna do Paraná; Momentos históricos como o assassinato da Santa Maria Bueno (ou seria meretriz), repudiada pela igreja católica e a quem o povo atribuiu inúmeros milagres, retribuidos em frente ao seu túmulo no cemitério municipal. Nos arquivos da biblioteca também podem ser achadas Lendas, como a das ruínas de São Francisco e seu tesouro de pirata enterrado; Assombrações como a da Reitoria da UFPR; a do Teatro Guaíra; e a mais ilustre da cidade: a da Loira Fantasma, que ataca os taxistas depois que estes a levam a seu destino: o cemitério do Abranches, personagens esta imortalizada em poesias, histórias em quadrinhos e curta-metragens (imagem ao lado). Lugares sinistros e misteriosos também fazem parte deste folclore documentado pela imprensa local, como os vários túneis secretos, o elevador do Colégio Estadual do Paraná e o túmulo da vidente Maria Polenta, entre outros.

Curitiba e toda essa sua aura de mistério é o palco perfeito desta estética alternativa. É a cidade que, enquanto o país festeja freneticamente o carnaval, reúne milhares membros de correntes do rock underground no vanguardista Psychocarnival. Mas a capital brasileira da contra-cultura é conhecida pelos seus eventos alternativos, não apenas nesta época do ano mas segundo BLINDAGEM, vêm desde festivais de 1977, que remetiam aos primeiros eventos americanos de hard rock, até shows de punk-rock, passando por festivais de RPG (Role Play Games – jogos de dramatização), Paradas Zumbis, Encenações de hilárias Casas do Terror que perduram desde 1995, todos sempre reunindo grandes públicos.

 

DANTE MENDONÇA procura desvendar essa gênese estrutural da cidade em seu livro Curitiba: melhores defeitos, piores qualidades, definindo a capital do Paraná como um povoado de incertezas e sombras, e apoteose do vago. MENDONÇA ainda reforça a colocação, apoiado pelo poeta Décio Pignatari, relacionando a indiferença da população à ocupação da cidade por imigrantes do leste europeu. Ele também define a cidade como arredia através da transcrição do polêmico texto de 1967 do jornalista Fernando Pessoa Ferreira intitulado “Curitiba, a fria”. Mas o que melhor define Curitiba neste livro é a charge de Tiago Recchia que marca a cidade em um mapa turístico com um castelo envolto por neblina e sobrevoado por morcegos. O que faz com que os turistas pensem consigo mesmo: "arriscamos?".

 REFERENCIAS:

 ANDRADE, Mário de. Cartas a Manuel Bandeira. Rio de Janeiro: Organização Simões editora, 1958. In: MARTINS, Wilson . A literatura brasileira: o modernismo. São Paulo: Cultrix, s.d.

 

ANDREW, J. D. Hugo Munsterberg. In:______ .As principais teorias do cinema: uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1989. P. 24-36.

 

BARCINSKI , A. Cinema marginal brasileiro, 2ª ed., São Paulo: Heco, 2004

 

BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Trad. Jamil Almansur Haddad. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.

 

BLINDAGEM,I.História disponível em: <www.bandablindagem.com.Br> 2009 CANEPA, Laura. “Cinema Expressionista Alemão”. In: MASCARELLO, Fernando (org). História do Cinema Mundial. 4. ed. Campinas: Papirus, 2008, p. 55-88.

 

CANTÓN J. F. Sánchez. Catalogo de las pinturas / Museo del Prado ; Madrid : Museo del Prado, 1963.

 

CARDINAL, Roger. O Expressionismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

 

CARROLL, N. A Filosofia do Horror, Editora Papiros, 1999

 

CHAUÍ, Marilena. Universo das artes. In:______ . Convite à filosofia. 12 ed. São

 

Paulo: Ática, 2001

 

DANTON, Gian et alii. Manticore Especial parte um. Curitiba, Monalisa, 1998

 

FANTASMA, de José Castelo. Rio de Janeiro, Record, 2001. 382p.


FRAGA E. Nelson Rodrigues - Expressionista, 1998, Ed.
Atelier, S.Paulo.

 

PACHECO, F. Prelúdio da Loira Fantasma, Curitiba, 2008

 

KAYSER, Wolfgang. O Grotesco: configuração na pintura e na literatura. São Paulo: Perspectiva, 1986. 162p.

 

KING, Stephen. Dança Macabra. Ed. Atual. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003

 

HELENA, L. O Expressionismo. In: —————— Movimentos da vanguarda européia: margens do texto. São Paulo : Scipione, 1993.


MENDONÇA, Dante. Curitiba: melhores defeitos, piores qualidades.
Curitiba. Bernúncia Editora.
2002

 

MIRA Y LÓPEZ, Emílio. O medo. In:______ . Quatro gigantes da alma. 4. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956.

 

NETO, I.: Morre em Curitiba o escritor Valêncio Xavier. Gazeta do Povo 05/12/2008 disponível em: < http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=835116&tit=Morre-em-Curitiba-o-escritor-Valencio-Xavier>

 

NUNES, Thiane. Configurações do grotesco: da arte à publicidade. Porto Alegre: Nova Prata, 2002

 

LUCCHETTI, L. e ROSSO, N. O estranho mundo de Zé do Caixão, Porto Alegre: L&PM, 1987

 

ROBINSON, D. O gabinete do Dr. Caligari. Rio de Janeiro:Rocco, 2000

 

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